terça-feira, 15 de agosto de 2017

Tivera que perder

Escuro e só, solitário, enxotou-se de si
Serrou os olhos, como se pouco tivera
Rotina, estória, estivesse
Como se tivera a frente,
Viera, viveu e abriu a porta de casa
À própria sorte.
Planos, panos na manga,
Forma e fórmula próprios de fazer sentido
De si
Além da sorte (e que sorte!),
Forte, essa escuridão de pouca gente
E muito caminho percorrido,
Lembranças, afetos, carinho
Saudade de todas as formas,
De como as obras obram,
Uma obra inteira da própria vida,
Que tem vida própria,
Lembra e só, como viver
Toda essa sede de viver cada linha
Fosse proibida.
Amor, silêncio, qualquer feixe de luz,
A sala sem luz recorda
O melhor da meia forma
Ou a pior a qual havia de viver
E ser vivida...
Capítulos, prosas, novelas
A proposta de uma ida sem volta
Posta à prova
Lembra que foi, correu
À deriva
Como havia de ser o futuro
E viveu
Como se houvera de voltar
Tivera que ficar

Atrás, lá pretérito de algo perdido
Que o próprio tempo cuidou de ter
E perder
Para que cada minuto, no futuro
Fosse apreciado como foi vivido no passado.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Idade

A pele já não é a mesma, a cor, derme.
O cheiro muda, o tato, tocar,
A qualidade do pegar e a forma capiciosa
De sentir o áspero, o frio,
O cru...

A idade faz mal com o passar,
Com o caminhar da própria idade.
Uma vida que era de pele lisa
Cobre-se por uma camada de rugas,
Como se trocasse de pele feito cobra.

É a fase do aceitar...
Aceitar-se ou reinventar
Visual, história, idade...
Abrir mão da própria idade 
Ou da maquiagem
Que agora prova que a própria pele
É o resultado mais difícil de aceitar
Da vida intensa

Ou tranquila (que se entregou ao mero esforço de passar).

Mais do que fios
Embranquecidos
Ou pelos negros que já se foram,
Mais do que a vista ruim,
Do que a surdez
Ou da falta de rigidez da fala.
Talvez a falta de memória
Demência ou Alzheimer
Seja o melhor remédio para a pele
Que sofre de idade.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vício

Parece vício
Sentimento estranho, somestesia
Essa tua voz, cheiro,
A forma das tuas formas
E essa tua mania de fazer aposta...

Disfarço
Um sentimento que me é estranho
Tanto quanto gosto, averso
Esqueço do mundo
Como ele em devaneios
E bem nesse instante
Astuto, assusto
Desejo afora do que sinto.

É como se eu apenas quisesse
E não me perguntasse
Nem respondesse, nem questionasse
Nem explicasse o que tampouco
Sei
Se é verdade
Ainda que não saiba...

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Utilitário

Havia um mero pesar de pensamento
De ideias diluvias
Que navegaria nas asas de um mar que voa,
Que padece respirar água doce
Enquanto toca um barco
Em meio a um vendaval qualquer,
Que pudera servir de peneira
Arteira
Deveras alheio seria...
Diferente haveria de ser.

Se o Mundo não trasladasse
Sobre o mundo das coisas, a cabeça de cada
'Enquanto pudera ser' do mínimo instante
De cada pessoa
O pedacinho útil da leveza do ser
Utilmente seria
Utilitário.

Haveria açúcar bem no meio do mar, azul
A espelhar a imensidão do céu
De poucas nuvens
Que tentam imitar o ar e, de tanto tentar,
Brancas se espaçam feito algodão
Na imensidão azul que fazem parte...

Se úteis haveriam ser
Enquanto inúteis assim que pensassemos
No Mundo como um pedaço da soma de tudo que serve
Para servir, talvez, não haveria
Gana, grana, granada,
Groelândia ou a placa na grama do vizinho
Proibindo qualquer útil de pisar
Ou de ser inútil.

E haveria
Talvez terra de grãos de ar
Sementes dispostas a germinar...
Um inútil a tentar ser o seu próprio útil
Na sua incansável sede de viver
E de provar para si mesmo que o inútil
Não está em tudo aquilo que não se tenta.

terça-feira, 14 de março de 2017

Fale

Se bem, mal, falam, que falem!
Ao menos, lembrem, importem,
Se importem como queiram...

Quisera, viera, pelo menos
Abrace cada pedaço que lhes pode
Como se não coubesse a parte que lhes cabe.

De mim, de si, de nós
Todos os demais, de alguma forma,
Importa a voz que diz
Assola, consola, se importa
Importe-se, importe...

Se mal, bem de mim, pelo menos
Ao menos cada pedaço cabe
Demais, de alguma forma, assola
Quisera, viera,
Fale como se não coubesse a parte que se pode.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Quisera bela

Pensei fossem olhos, brilho, face
Pensei que fosse bela, beleza, belágua
Pensei que essa tua beleza, acesa
Feito vela não apagasse
E jorrasse o que havia de mais belo em ti,
O que há por trás, intrigante, esse teu pedaço
Que não se define, nem decide,
Nem se embebe para quem procura
Por água, bebesse de ti...

Pensei quisera ser bela
Que bela fosse, como os olhos brilham
Teu cabelo liso, tua pelo jambo
Como se manga doce feito
De olhar, dá para crer... O que não é.

Só que tristeza, carência, apatia
Não sei se te frustras com o belo que está bem a frente
Ou com o frenesi da tua textura pouca
De ternura...

Apesar da beleza, vi triste
Te vi no olhar, mufina
Como quisera dali partir, fugir
Como se tua pele não fosse
Aquela como se aquele cabelo não te fosse
Como que aqueles olhos que brilham
Não tivessem
Luz própria...

Eles, negros, você, bela
Não vi beleza além, tristeza
Nem tristeza bela além da carne que te prende,
Te esconde, vi um monte, incertezas, frágeis
Frangalhos quebradiços de cada pedaço de cada dia teu
Contados...
Talvez a esconder tua feiura, talvez
A evitar que essa tua beleza toda
Murche...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dias e dias

Há dias de cada vez
Cada vez que brilham menos, os rostos
Riem menos...
Franzem, as testas...
Rangem, os dentes...
Cada vez que o tempo passa
E envelhece a liberdade que tortura
Escurecem, os dias, a cada instante de labuta.

Teve uma época que pensei que amor fosse ser
E ser, amor
E estar, calor
E leitura, odor
E ajuda, afago
E o que estivesse adiante, eu...