quinta-feira, 6 de abril de 2017

Utilitário

Havia um mero pesar de pensamento
De ideias diluvias
Que navegaria nas asas de um mar que voa,
Que padece respirar água doce
Enquanto toca um barco
Em meio a um vendaval qualquer,
Que pudera servir de peneira
Arteira
Deveras alheio seria...
Diferente haveria de ser.

Se o Mundo não trasladasse
Sobre o mundo das coisas, a cabeça de cada
'Enquanto pudera ser' do mínimo instante
De cada pessoa
O pedacinho útil da leveza do ser
Utilmente seria
Utilitário.

Haveria açúcar bem no meio do mar, azul
A espelhar a imensidão do céu
De poucas nuvens
Que tentam imitar o ar e, de tanto tentar,
Brancas se espaçam feito algodão
Na imensidão azul que fazem parte...

Se úteis haveriam ser
Enquanto inúteis assim que pensassemos
No Mundo como um pedaço da soma de tudo que serve
Para servir, talvez, não haveria
Gana, grana, granada,
Groelândia ou a placa na grama do vizinho
Proibindo qualquer útil de pisar
Ou de ser inútil.

E haveria
Talvez terra de grãos de ar
Sementes dispostas a germinar...
Um inútil a tentar ser o seu próprio útil
Na sua incansável sede de viver
E de provar para si mesmo que o inútil
Não está em tudo aquilo que não se tenta.

terça-feira, 14 de março de 2017

Fale

Se bem, mal, falam, que falem!
Ao menos, lembrem, importem,
Se importem como queiram...

Quisera, viera, pelo menos
Abrace cada pedaço que lhes pode
Como se não coubesse a parte que lhes cabe.

De mim, de si, de nós
Todos os demais, de alguma forma,
Importa a voz que diz
Assola, consola, se importa
Importe-se, importe...

Se mal, bem de mim, pelo menos
Ao menos cada pedaço cabe
Demais, de alguma forma, assola
Quisera, viera,
Fale como se não coubesse a parte que se pode.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Quisera bela

Pensei fossem olhos, brilho, face
Pensei que fosse bela, beleza, belágua
Pensei que essa tua beleza, acesa
Feito vela não apagasse
E jorrasse o que havia de mais belo em ti,
O que há por trás, intrigante, esse teu pedaço
Que não se define, nem decide,
Nem se embebe para quem procura
Por água, bebesse de ti...

Pensei quisera ser bela
Que bela fosse, como os olhos brilham
Teu cabelo liso, tua pelo jambo
Como se manga doce feito
De olhar, dá para crer... O que não é.

Só que tristeza, carência, apatia
Não sei se te frustras com o belo que está bem a frente
Ou com o frenesi da tua textura pouca
De ternura...

Apesar da beleza, vi triste
Te vi no olhar, mufina
Como quisera dali partir, fugir
Como se tua pele não fosse
Aquela como se aquele cabelo não te fosse
Como que aqueles olhos que brilham
Não tivessem
Luz própria...

Eles, negros, você, bela
Não vi beleza além, tristeza
Nem tristeza bela além da carne que te prende,
Te esconde, vi um monte, incertezas, frágeis
Frangalhos quebradiços de cada pedaço de cada dia teu
Contados...
Talvez a esconder tua feiura, talvez
A evitar que essa tua beleza toda
Murche...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dias e dias

Há dias de cada vez
Cada vez que brilham menos, os rostos
Riem menos...
Franzem, as testas...
Rangem, os dentes...
Cada vez que o tempo passa
E envelhece a liberdade que tortura
Escurecem, os dias, a cada instante de labuta.

Teve uma época que pensei que amor fosse ser
E ser, amor
E estar, calor
E leitura, odor
E ajuda, afago
E o que estivesse adiante, eu...


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

2017 3.0

Foi o mais sabático dos meus ultimos anos. Voltei para o aconchego da minha casa, menos trabalho do que de costume, quase não investi tempo em estudos e qualificação; abusei mais dos jogos eletrônicos, do Netflix e das horas vagas deitado no sofá. Diferente das quase 14 horas que costumado estava a gastar laborando, metade disto, em 2016, foi gasto fazendo definitivamente nada.

Até que foi legal, li e aprendi curiosidades adversas até então de fora do meu círculo de interesses. Conheci gente bacana, fiz aquilo que jazia não fazer tinha um tempo. Cinema de menos, leitura de menos, musica de menos... Spotfy e Deezer fizeram presença nos ultimos meses do ano!

Ano de pouca cultura e mais ócio do que de costume. Reencontrei gente das antigas, redescobri amigos e conhecidos que, hoje, afirmo não ser amigos de verdade (apenas conhecidos de bom apreço). Os grupos de Whats App também tomaram um pouco mais de tempo (talvez, por isso, tenha reduzido a carga de leitura)...

Vi desastres, desgostos, destroços; várias batidas de trânsito, senti na pela a má sensação de um cárcere privado, assalto, sequestro e assédio moral. Aprendi a sentir saudade de ser grande ou maior do que ser alguém que tem muito tempo livre para o ócio.

Senti prazer nas coisas que gosto, nas pessoas que gosto, nos motivos que me levam a fazer aquilo que deixo de gostar por esgotamento próprio. Pensei saber o que é Burnout na prática, até que a prática me disse que a teoria é o esforço das palavras de traduzir com o prórpio corpo um fato.

Até que legal, 2016 não me fez feliz como esperava. Definitivamente, não sei se sou feliz ou se me acomodei nas minhas limitações... Nunca me senti tão só quanto acompanhado, talvez, por estar na casa dos 30, tenha me dado por mais exigente e aperfeiçoado o senso próprio que mede a qualidade das companhias que me seguem e que sigo.

Em 2016, faltaram convites, aconchego, carinho e um pouco de gentileza. Jamais havia assistido tanto ódio cru em tão pouca linha de tempo... Mais que intolerância, 2016 mostrou-me muita covardia e necessidade de gente na vida da gente. Escrachadamente, vi, nos instantes que restam de 2016, repúdio e recíproca morna...
Pôr-do-sol no João Paulo,
São Luis, MA, 2014, 17h55.

Decidi no meu canto confraternizar aqui com os meus e não com os dos outros. Em cima da hora, sem avisar, disse para mim que não iria, ainda que um dos meus por lá eu queira deixar um abraço forte de celebração à vida!

Nesta semana, minha mãe me perguntou se tinha preferência de roupa para a virada do ano. Pedi branco.

Mais que amor, dinheiro, sucesso, o que realmente necessito é de menos conversas sobre política, Lula ou Temer e mais idas a Paraíba, ao Maranhão ou a rodas de violão na beira da praia. Meu passado de inocência e leviandade nunca me fez tanta falta (ainda que a maior delas esteja na memoria daquelas que se foram)... Também preciso de espiritualidade.

Um 2017 bem diferente de 2016 desta vez!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um pedaço do tempo que vai

Parece, tem um tempo...
Um mundo de pessoas todo meu
Teu
Que é de ninguém
Outra vez ignora a força do vento
Como se o próprio vento soprasse na direção contrária
Daquilo que 'fosse' seu
À própria sorte.

Tem um pedaço do tempo que vai
O tempo que na sua forma não volta,
Tem uma parte do que é lembrança
Que lembra e fica na memória
Como se a vida parasse no tempo
No meio do próprio tempo à própria sorte...

Nas esquinas,
Calçadas, das filas, no banco da praça,
Das paradas, na tribeira das fachadas
Os monumentos à arte, das vielas dos bairros
Históricos no tempo de cada segundo deserto
Das ruas típicas no que é atípico
E que lembra na recordação,
(Tudo) volta o tempo inteiro...

Dói
A cada tempo em que me vejo
Sem reconhecer a mim
Diante do espelho...
Na pele da rotina
Na unha da necessidade
No sabor da carne
À fio de uma novidade
Mesmo, assim mesmo (é assim mesmo),
Dói (contra a vontade)...

Escolhas desajeitadas de tudo o que veio depois
Distante, deserto, desejo,
Centeios, passado
Medo da morte, da navalha que sangra a ferida
Ou do fato inevitável de ter que aceitar a si mesmo
Mesmo que pela metade...
É como agulha que entra na pele,
Espera sem resposta ou solidão acompanhada
De alguém em silêncio sem vaidade...

Uma parte desse tempo volta
E vai ainda que não se queira
Sem certeza, mentira, verdade...

domingo, 24 de julho de 2016

Tem um tempo

Há pouco querer, ser, reprimido,
Desejo e anseio de si em ser si próprio
À própria forma
Há modo de trauma que tortura
E parece torturar no infinito de uma vida na forma...

Quis continuando ser quem realmente
Era sem intervir no modo
Como o são pela simples escolha de serem
Quem são da forma como...

Havia pouco de estranho,
Não há, regressei com desejo e quis estar
E doar, como tudo,
Como sempre
E de modo grosseiro, tudo é proibido...

Se é loucura, esquizofrenia,
Não sei, a cada dia que passa, cada pouca estatura
Que acumula no ser, suicídio
Parece que este lugar deixou de ser a forma do meu
Tem um tempo.